Bom dia a todos!
Hoje, eu gostaria de compartilhar com
vocês a análise que fiz de um dos sermões do Grande Padre Antonio Vieira, orador
do século XVII que produziu extensa literatura barroca durante sua vida. O
sermão em destaque é o "Sermão da Sexagésima".
Na verdade, eu já havia lido o dito
sermão, porém com outros olhares. Como todos sabem, nada melhor do que
amadurecimento de vida e intelectual para que aprimoraremos nossas leituras. Bom,
aqui vai!
Primeiramente, vamos contextualizar
a produção do texto. A escola literária é o Barroco, que teve início na Itália
no final do século XVI e terminou em meados do século XVIII. Em Portugal, também
é conhecido como Seiscentismo. O movimento surgiu no momento de turbulência
político-econômica, social e religiosa marcada pelo término do Ciclo das
Navegações, pela Reforma Protestante e o movimento católico da Contrarreforma.
O Barroco foi uma tentativa de
fundir duas linhas de força que orientavam a cultura Renascentista: a medieval
e a clássico-teocêntrica / antropocêntrica. Foram cultuadas a oratória, a prosa
doutrinária, a poesia, a ficção narrativa, a historiografia, a epistolografia (prática de escrever cartas com especial atenção ao ambiente cultural e à época) e o teatro. por hora, vamos nos atentar a oratória e a prosa doutrinária.
O
Sermão da Sexagésima
Pregado na Capela Real de Lisboa, em
1655, contém uma teoria da arte de pregar. Seu tema é extraído de uma passagem
bíblica escolhida para a ocasião: "Semen est verbum Dei" (Lucas,
VIII, 2), ou seja, "A semente é a
palavra de Deus". E com base nesta passagem, Vieira abre o sermão com o
seguinte questionamento: "Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa,
como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?"
Para buscar e resposta a esta
indagação, li o texto com bastante atenção, e separei algumas partes com as que
mais me chamaram a atenção, fazendo comparações entre o conteúdo do texto e o
que se passa atualmente com relação às práticas religiosas. Aqui elas seguem:
Parte
I
" Verdadeiramente não sei de que mais
me espante, se dos
nossos conceitos, se dos vossos
aplausos! Oh, que bem levantou
o pregador! – Assim é; mas que
levantou? – Um falso testemunho
ao texto, outro falso testemunho ao
santo, outro ao entendimento
e ao sentido de ambos. Então que se
converta o Mundo com falsos
testemunhos da palavra de Deus?! Se
a alguém parecer demasiada
a censura, ouça-me." (p.109)
Aqui Vieira questiona a prática dos
pregadores da palavra de Deus, ou, como ele dizia, os "semeadores" de
sua palavra. É claro para nós que desde aquela época já existiam aqueles que
usavam da palavra de Deus - corruptos religiosos - para conseguir algo em troca. Mais a frente veremos
outros pontos que levam a outras conclusões.
Parte
II
" A pregação que frutifica, a pregação
que aproveita,
não é aquela que dá gosto ao
ouvinte, é aquela que lhe dá pena.
Quando o ouvinte a cada palavra do
pregador treme; quando cada
palavra do pregador é um torcedor
para o coração do ouvinte;
quando o ouvinte vai do sermão para
casa confuso e atónito, sem
saber parte de si, então é a
pregação qual convém, então se pode
esperar que faça fruto: Et fructum
afferunt in patientia." (p. 113)
Esta passagem é, para mim, a mais
forte de todo sermão. Hoje temos a teologia da prosperidade, surgida nos
Estados Unidos no século XX. Seu ideal central é que "a fé a Deus é
intrínseca à busca pela prosperidade tanto espiritual como financeira" (Revista
Filosofia - Conhecimento Prático, Núm. 41, p. 48). Aqui enxergamos o conflito
entre as palavras de Vieira e a prática adotada por essa teoria teológica. Se a
palavra de Deus serve para "punir psicologicamente ou dizer ao ouvinte que
ele deve ponderar acerca de seus atos, então não devemos ir à igreja pensando
que, se eu rezar a Deus vou adquirir o carro que quero ou conseguir o emprego
desejado.
Parte
III
" – dizia o maior de todos os
pregadores, S. Paulo: Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus"
(p. 114)
Será então que os servos da
"prosperidade" desconhecem esta passagem da bíblia, ou simplesmente
descartam-na, ou a tradução de sua bíblia é diferente... nobody knows, or
nobody cares...
Em suma, ler este texto e não
enxergar o que acontece com as práticas religiosas, fazendo pontes entre o
movimento barroco e atualidade, é, na minha opinião, ser sego dentro de um tiroteio.
Na verdade, é difícil dizer o que as pessoas têm na cabeça quando o assunto é
religião. Se o Deus é um só, para que existir tanta diversidade?
Tenham um bom dia!
Bibliografia
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa Através dos Textos.
São Paulo : Editora Curtix, 2012.
Revista
Filosofia - Conhecimento Prático.
São Paulo: Escala Educacional, 2013.
VIEIRA, Antonio. Sermões Escolhidos. São Paulo: Martin
Claret, 2011.
Webgrafia
Wikipédia - Dicionário de termos
Visitado em
06/10/2013, às 11:25.

Nenhum comentário:
Postar um comentário