domingo, 6 de outubro de 2013

Religião: Análise do Sermão da Sexagésima de Padre Antonio Vieira


Bom dia a todos!

Hoje, eu gostaria de compartilhar com vocês a análise que fiz de um dos sermões do Grande Padre Antonio Vieira, orador do século XVII que produziu extensa literatura barroca durante sua vida. O sermão em destaque é o "Sermão da Sexagésima".  



Na verdade, eu já havia lido o dito sermão, porém com outros olhares. Como todos sabem, nada melhor do que amadurecimento de vida e intelectual para que aprimoraremos nossas leituras. Bom, aqui vai!

Primeiramente, vamos contextualizar a produção do texto. A escola literária é o Barroco, que teve início na Itália no final do século XVI e terminou em meados do século XVIII. Em Portugal, também é conhecido como Seiscentismo. O movimento surgiu no momento de turbulência político-econômica, social e religiosa marcada pelo término do Ciclo das Navegações, pela Reforma Protestante e o movimento católico da Contrarreforma.

O Barroco foi uma tentativa de fundir duas linhas de força que orientavam a cultura Renascentista: a medieval e a clássico-teocêntrica / antropocêntrica. Foram cultuadas a oratória, a prosa doutrinária, a poesia, a ficção narrativa, a historiografia, a epistolografia (prática de escrever cartas com especial atenção ao ambiente cultural e à época) e o teatro. por hora, vamos nos atentar a oratória e a prosa doutrinária.

O Sermão da Sexagésima

Pregado na Capela Real de Lisboa, em 1655, contém uma teoria da arte de pregar. Seu tema é extraído de uma passagem bíblica escolhida para a ocasião: "Semen est verbum Dei" (Lucas, VIII, 2), ou seja,  "A semente é a palavra de Deus". E com base nesta passagem, Vieira abre o sermão com o seguinte questionamento: "Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?"

Para buscar e resposta a esta indagação, li o texto com bastante atenção, e separei algumas partes com as que mais me chamaram a atenção, fazendo comparações entre o conteúdo do texto e o que se passa atualmente com relação às práticas religiosas. Aqui elas seguem:

Parte I
" Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos
nossos conceitos, se dos vossos aplausos! Oh, que bem levantou
o pregador! – Assim é; mas que levantou? – Um falso testemunho
ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento
e ao sentido de ambos. Então que se converta o Mundo com falsos
testemunhos da palavra de Deus?! Se a alguém parecer demasiada
a censura, ouça-me." (p.109)

Aqui Vieira questiona a prática dos pregadores da palavra de Deus, ou, como ele dizia, os "semeadores" de sua palavra. É claro para nós que desde aquela época já existiam aqueles que usavam da palavra de Deus - corruptos religiosos - para conseguir algo em troca. Mais a frente veremos outros pontos que levam a outras conclusões.  

Parte II
" A pregação que frutifica, a pregação que aproveita,
não é aquela que dá gosto ao ouvinte, é aquela que lhe dá pena.
Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme; quando cada
palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte;
quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atónito, sem
saber parte de si, então é a pregação qual convém, então se pode
esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia." (p. 113)

Esta passagem é, para mim, a mais forte de todo sermão. Hoje temos a teologia da prosperidade, surgida nos Estados Unidos no século XX. Seu ideal central é que "a fé a Deus é intrínseca à busca pela prosperidade tanto espiritual como financeira" (Revista Filosofia - Conhecimento Prático, Núm. 41, p. 48). Aqui enxergamos o conflito entre as palavras de Vieira e a prática adotada por essa teoria teológica. Se a palavra de Deus serve para "punir psicologicamente ou dizer ao ouvinte que ele deve ponderar acerca de seus atos, então não devemos ir à igreja pensando que, se eu rezar a Deus vou adquirir o carro que quero ou conseguir o emprego desejado.

Parte III
" – dizia o maior de todos os pregadores, S. Paulo: Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus" (p. 114)
Será então que os servos da "prosperidade" desconhecem esta passagem da bíblia, ou simplesmente descartam-na, ou a tradução de sua bíblia é diferente... nobody knows, or nobody cares...

Em suma, ler este texto e não enxergar o que acontece com as práticas religiosas, fazendo pontes entre o movimento barroco e atualidade, é, na minha opinião, ser sego dentro de um tiroteio. Na verdade, é difícil dizer o que as pessoas têm na cabeça quando o assunto é religião. Se o Deus é um só, para que existir tanta diversidade?

Tenham um bom dia!

Bibliografia
MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa Através dos Textos. São Paulo : Editora Curtix, 2012.
Revista Filosofia - Conhecimento Prático. São Paulo: Escala Educacional, 2013.
VIEIRA, Antonio. Sermões Escolhidos. São Paulo: Martin Claret, 2011.
Webgrafia
Wikipédia - Dicionário de termos
Visitado em 06/10/2013, às 11:25.


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